Bruxaria Distro surgiu da mistura do DIY (“faça-você-mesma”) punk com uma perspectiva holística de saúde e permacultural de ecologia.

Somos culturalmente, e a duras penas, ensinadas a separar em caixinhas muito bem delimitadas percepções, tradições e outros modos de viver em áreas de conhecimento científico, desconectar nossas vidas e corpos de sentires e saberes de redes interdependentes de outros seres vivo para então sobreviver de uma maneira rígida, pré-programada, totalmente controlada e previsível de um sistema de pensamento que condiciona nossas vidas de maneira muito limitada.

Tudo está conectado e não há como negá-lo: saúde, alimentação, educação, transporte, moradia, relações humanas, comércio, governos. E em uma busca paliativa de resolver problemas (seja a busca da cura de uma enfermidade, uma escola menos opressora, um mercado mais justo, andar de transporte público ou bicicleta), estamos sempre apagando incêndios e não percebendo o problema desde sua raíz, voltando uma e outra vez à etapa inicial.

Uma vez que você passa a ver a integralidade e apoio mútuo de outros sistemas vivos, você percebe que alguma coisa está errada com seu modo de vida, e muitas vezes (ainda bem!) é um ponto sem retorno. Eu não acredito que as coisas sempre foram ou serão assim. E nessa inconformidade com a realidade, fui buscando, descobrindo, aprendendo que existem outras maneiras de conceber a existência neste mundo. Muitas vozes foram e são caladas quando demonstram essa possibilidade. E as bruxas foram uma dessas vozes. Estas mulheres eram cuidadoras, parteiras, curandeiras, e pessoas de grande sabedoria e respeito; esta figura importante, forte e símbolo de resistência se tornou uma ameaça em seu contexto social e histórico da época. Certamente as bruxas não precisavam ser grandes contestadoras para serem vistas como ameaçadoras de uma nova visão de mundo que vinha feito um trator passando encima do que pudesse: o novo paradigma da época, guiado pela religião e o estado, pretendia tocar o cerne da sociedade: controlar os corpos, a saúde, a alimentação, as relações das pessoas. É claro que este fato histórico é apenas um dos várias que possibilitaram que chegássemos ao momento que estamos hoje.

Mas o que estou querendo dizer com “bruxaria”, vem deste momento. Desta resistência. Bruxaria é mágica, não é linear, não é precisa, não é cartesiana, não é puramente racional. Valoriza a intuição, ultrapassa nossa capacidade de percepção racional, visual, olfativa, gustativa ou tátil, vai para além, desafia a ordem estabelecida. Bruxaria muitas vezes não se explica: sabe que é. Bruxaria acontece quando você se conecta, através de seus pés descalços, na terra molhada, e seu corpo arrepia do calcanhar até a ponta da cabeça, sentindo seu corpo pertencendo a um corpo maior. Bruxaria não é necessariamente sobre religião, nem sobre deusas ou deuses. Bruxaria é sobre horizontalidade, porque tudo faz parte de tudo, não há maior ou melhor. É sobre olhar para dentro de si e ver uma fortaleza.

A Bruxaria Distro é filha da “Bio bio saúde feminista”, minha distro transitória, que penduou por uns 6 anos até parir, por fim, a Bruxaria. Distro vem de distribuidora: de materiais, de ideias, de cartas, de notícias (esse é bastante do braço punk da distro, que é muito comum no movimento punk). Eu produzo alguns dos materiais da distro (os abiosorventes, alguns zines, alguns textos, alguns vídeos), e outros são de outras origens; alguns se vendem, outros se trocam, outros são gratuitos.

A proposta da distro, é reunir alguns produtos e materiais que relacionem e problematizem a situação da saúde das mulheres atualmente. No começo desta apresentação, estive devaneando sobre “como tudo está conectado”, e por isso tem de tudo um pouco na distro; materiais sobre permacultura, fitoterapia, bicicleta, empoderamento, “higiene”, feminismo, parto/nascimento, política, sexualidade, autocuidado, autodefesa… Porque tudo isso pode contribuir e afetar sua saúde.

Essa é a Bruxaria Distro: um grande portal de apoio para um mergulho dentro de si mesma.

As Bruxas não são mulheres

Nunca mudei porque alguém me convenceu da sua boa ou verdadeira ideia. Nunca mudei convencida por uma boa ou justa ação. Sempre mudei à base de feitiços, sejam estes relações, teorias, práticas, narrações… e justamente, de fato, um feitiço desfaz estas fronteiras. Mudanças que se apresentaram a mim primeiramente como bruxaria. Cada orgia, uma cerimônia sabática. Cada saber e prática novos, um feitiço. Cada membra da manada, uma bruxa.

As bruxas existiram e seguem existindo. As bruxas eram, e são, as hereges da ordem heteropatriarcal. As bruxas não são nem uma fantasia de contos de fadas, nem a fantasia de contas de fados. Bruxaria é uma palavra que nos roubaram para substituí-la por política. E arte. E ciência. E conhecimento… uma atividade diurna e normalizada, incapaz de subverter essa mesma ordem.

A história oficial (a narração consensual) oscila entre a negação e a negação. A negação de que a caça às bruxas tenha sido a base do estabelecimento da sociedade ocidental atual. E a negação de que eram bruxas.

A primeira nega que tenha sido um projeto de extermínio com fins muito claros: a eliminação voluntária e organizada das que manifestavam uma oposição e uma diferença à universalização da norma em expansão naquele momento. Essa primeira negação provém daqueles que defendem a norma atual desde seu lado direito.

A segunda nega que as bruxas eram mais que mulheres. Nega-se, sob o pretexto paternalista de defendê-las, que eram mulheres opostas à ordem heteropatriarcal. Uma postura vitimizante, que pretende transformar as bruxas em mulheres “normais”, quando eram mulheres que se definiam precisamente em oposição a esta norma, quando eram feministas. Pela mesma ocasião, minimiza-se a violência da ordem heteropatriarcal, apresentando a caça às bruxas como um excesso ocasional desta ordem e não como sua característica estrutural. Abrindo a porta para que este poder possa ser outra coisa. Uma negação, essa vez, que vem do lado esquerdo, pretendendo que este poder já não é o mesmo e que as bruxas, como tal, não existiam. Negando, assim, que podem existir ainda.

A caça às bruxas foi um extermínio de antagonistas e desertoras à norma. Tinham práticas sexuais opostas à heterossexualidade e viviam autônomas do patriarcado. Tinham modos de vida organizados em redes que combinavam a criação de zonas autônomas com o nomadismo, e que se opunham à herança patriarcal e estatal da terra e das riquezas. Tinham saberes situados e ordens simbólicas próprias que se opunham à centralização do conhecimento e da teologia dogmática. Trabalhavam para elas ou não trabalhavam, e se opunham à relação hierárquica feudal e matrimonial. A caça às bruxas tem sido uma guerra total (militar, ideológica, cultural, de gênero, sexual, territorial, econômica) para conseguir a modernização (quer dizer: a fase imperialista, totalitária e estatal) do regime heteropatriarcal. A caça às bruxas tem sido acima de tudo uma normalização planejada e sistemática.

A imagem folclórica que se tem, hoje em dia, da “Bruxa” é o reflexo dessa normalização. Uma imagem que nos apresenta uma bruxa sem bruxaria, uma mulher que tinha mais relação com a “natureza” por sua própria natureza. Com essa visão essencialista, se nega que as bruxas, por sua identidade escolhida de hereges, conseguiram desenvolver por si mesmas seus conhecimentos. Que haviam obtido estes conhecimentos por meio de suas práticas, e não por meio de algumas supostas características inatas que lhes permitia entender melhor as plantas, o corpo, a terra… e se limita assim, retrospectivamente, estes conhecimentos a algumas poções de plantas e feitiços esotéricos sem efeitos tangíveis. Opõem-se a bruxaria à técnica e à ciência “moderna”. Mantém-se a ideia de que suas práticas eram pré-lógicas, pré-científicas, que eram as que tinham o saber mais amplo do momento.

As bruxas não tinham mais conhecimentos sobre a “natureza”, e sim sobre o “entorno”. As bruxas eram as mais hi-tech do momento. As bruxas já eram ciborgues. Manipulavam os signos, símbolos, objetos e corpos para transformar efetivamente o mundo, à base de leis enunciadas e enunciados lidos, à base de narrações constitutivas de novas realidades, à base do uso da química e de suas possibilidades para alterar as capacidades mentais, à base de intervenções sobre o corpo para alterar suas funções, à base de práticas sexuais capazes de gerar identidades não-normativas…. Seus feitiços eram efetivos e hoje se encontram catalogados sob a categoria de arte, política, filosofia, técnica, ciência, sexualidade… A bruxaria era, e é, a manipulação e a transformação efetiva do mundo à base de feitiços. As bruxas eram, e são, as hereges da ordem patriarcal. E nem a repressão, nem a assimilação lhes farão desaparecer, porque são as que efetivamente têm a capacidade de mudar o mundo. Necessitamos outra forma de política, e pode ser que essa forma não seja outra coisa que a bruxaria. E o feitiço mais efetivo para isto é reconhecer-nos como bruxas.

(texto de Yan Quimera, publicado no livro Sexual Herria de Itzar Ziga – Editora Txalaparta, 2011)